Jogo de tabuleiro mostra na prática conceitos de Cidadania e Justiça para alunos

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* por Pedro Washington de Almeida Júnior

Já imaginou se o jogo “Banco Imobiliário” ensinasse sobre justiça distributiva, igualdade e liberdade, justiça econômica, mecanismos de controle popular? Se no jogo de tabuleiro “Detetive” fosse preciso abordar conceitos de Culpa, Dolo e tipicidade do crime ao promover uma “denúncia criminal” contra o Coronel Mostarda, que supostamente cometeu crime usando a arma candelabro na Biblioteca?

Brincadeira a parte, imagine que um simples jogo de tabuleiro seja capaz de trazer ao mundo dos leigos, conceitos jurídicos complexos aplicáveis ao dia a dia.

Pois este jogo existe e está sendo desenvolvido dentro de uma Universidade na cidade de Curitiba, Paraná.

Enquanto se discute grandes e relevantes temas nas Universidades e no meio jurídico, a sociedade está distante de conceitos simples, como o pleno exercício da cidadania.

Conceitos como justiça, igualdade e liberdade, tratamento isonômico, mecanismos de proteção a direitos difusos, são próprios dos debates acadêmicos, mas distantes da sociedade em geral, principalmente dos meninos e meninas que formarão a futura sociedade brasileira, e que sentem na pele, o que significa diferença social e desigualdade de tratamento.

Como funciona?

O jogo está em fase de testes, mas promete levar de maneira lúdica e didática conceitos importantes e complexos de Direito e Justiça aos estudantes secundaristas das escolas de Curitiba.

Os temas são apresentados em situações reais, e o jogo reproduz com bastante direta os desafios sociais de indivíduos e grupo de indivíduos, incluindo diferenças nas condições sociais iniciais de cada cidadão. E vai além, provocando nos participantes reflexões sobre a consequência de seus atos e escolhas pessoais diante da vida.

Talvez o grande marco do jogo seja propor perguntas: Como lidar com estas diferenças de condições iniciais? Como o conceito de justiça é aplicado?
A proposta é clara: aplicação de conceitos de Teorias de Justiça ensinado na Academia.

Em tempos em que a capacidade de exercer a cidadania é necessária ao desenvolvimento da sociedade, uma proposta inusitada como esta mostra que é possível, sim, aproximar conceitos acadêmicos da sociedade.

Um jogo desenvolvido inicialmente para alunos das escolas, mas que pode ser perfeitamente usado por adultos e todos aqueles interessados em aprofundar conhecimento sobre Cidadania e Justiça.

Entrevistamos o professor Roosevel para saber mais sobre o Jogo de Tabuleiro.

Como surgiu a ideia de um jogo de tabuleiro para Educação Cívica?

(Professor Roosevelt Arraes)
Desde 2011, desenvolvo um projeto de pesquisa no Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA no qual discuto com os estudantes (pesquisadores) temas relacionados ao direito eleitoral, à democracia e a princípios de justiça.

Em 2015 tivemos a ideia de levar nossas discussões para além do ambiente universitário. Fizemos algumas visitas em escolas públicas do ensino médio, onde algumas iniciativas já estavam sendo implementadas, especialmente, com palestras em que alguém da área jurídica repassava informações sobre o sistema e as instituições jurídicas.

Notamos que os jovens nem sempre se interessavam por este modelo (de palestras). Percebemos que para formar uma cultura democrática na juventude é necessário aprofundar as discussões sociais, políticas e econômicas. No entanto, estas discussões são enfadonhas para a maioria deles.

Aí surgiu a ideia do jogo, ou seja, um instrumento lúdico que concentra as principais polêmicas sobre estas questões. A conceito é que, a partir dos problemas que surgirão no momento em que os jovens interagirem no jogo, poderemos, em seguida, introduzir discussões e palestras. Ou seja, a partir da motivação do jogo, pretendemos aprofundar as discussões com a apresentação dos assuntos, de maneira mais séria, por professores (de todos os níveis) e alunos do ensino superior.

Como foi o processo de desenvolvimento e quem esteve envolvido?

(Professor Roosevelt Arraes)
Pesquisamos modelos de jogos que poderiam servir de base para as nossas pretensões. Encontramos alguns poucos jogos, todos eles com objetivos bem específicos.

Um exemplo. Uma juíza aposentada da Suprema Corte americana desenvolveu um aplicativo que ensina jovens e crianças a entender o sistema eleitoral, bem como algumas relações de poder existentes entre os principais partidos daquele país.

Estes jogos são interessantes e podem ser usados como material de apoio para as discussões que pretendemos apresentar nas escolas. Mas, eles são muito específicos e não permitem que o jovem tenha uma visão de conjunto sobre os problemas (e as possíveis) soluções para os problemas de justiça política, econômica e social.

A partir daí pensamos em construir um jogo de tabuleiro mais inovador e abrangente. Começamos pensando no propósito final, ou seja, no que pretendíamos discutir com os estudantes do ensino médio. Sempre que possível reúno-me com o pessoal do grupo de pesquisa e tentamos aperfeiçoar o jogo.

Do que trata o jogo de tabuleiro? Qual a lógica que o jogo envolve?

(Professor Roosevelt Arraes)
O jogo trata das escolhas que fazemos na vida, da responsabilidade que devemos ter com nossos projetos pessoais e com a qualidade de vida de todos. Trata também das dificuldades que enfrentamos ao longo do tempo.

Para mostrar isso de forma lúdica, construímos um tabuleiro para 5 jogadores. Cada um parte de uma classe social diferente, com renda diferente. São sorteados aleatoriamente o gênero, os talentos naturais, dentre outros fatores que afetam o ponto de partida de cada pessoa no início da vida. No trajeto, os jogadores passam por situações do cotidiano, como escolha da carreira, obtenção de emprego, desemprego, problemas de saúde, dentre outras.

Ao longo do trajeto todos devem pagar um valor mínimo para se manter no jogo. Alguns, em razão das escolhas, da situação inicial ou das dificuldades do jogo acabam não conseguindo pagar tais despesas. Outros, acabam com problemas de saúde e tem realizar gastos que nem sempre conseguem pagar.

Nestas situações, abre-se a possibilidade de os jogadores discutirem, coletivamente, o que fazer em relação a este jogador para que ela não seja excluído do jogo antes do fim. Os jogadores também podem escolher não ajudá-lo. Em qualquer caso, o resultado final da situação de cada jogador é avaliada por um tutor, que aplica o jogo e posteriormente faz uma análise final.

O jogo também lida com um princípio constitucional básico da igualdade. Qual sua visão sobre o princípio do tratamento isonômico?

O jogo pretende mostrar as tensões existentes entre o princípio constitucional da igualdade e o da liberdade.

Existem várias formas de se pensar a igualdade (isonomia, oportunidade, material, etc.) e a liberdade. Esse é o ponto central de discussão das teorias da justiça. Tratar destas teorias de maneira acadêmica não é muito atraente para os jovens. Mas, mostrar como as decisões individuais e coletivas são afetadas por estes princípios constitucionais num jogo, ajuda a conscientizá-los sobre a necessidade de se discutir sobre estes temas.

Quanto ao tratamento isonômico, pessoalmente, entendo que ele somente pode ser exigido daqueles que estão numa mesma condição jurídica. Para os que estão em situação diferente, o tratamento deve ser outro. Ou seja, a isonomia é apenas mais um elemento da discussão sobre a justiça.

De toda forma, esta é uma visão pessoal. A discussão que o jogo pretende despertar possibilita que os jogadores raciocinem estas relações entre a igualdade e a liberdade de diversas maneiras diferentes.

O que importa é que os jovens tenham uma visão abrangente sobre as diversas formas de pensar a justiça, não ficando presos a este ou aquele discurso proferido por uma autoridade (um familiar, um professor, um político, um religioso, etc.).

Qual o objetivo final do desenvolvimento deste jogo?

(Professor Hoosevelt Arraes)
O intuito é de levar o jogo a todas as escolas do país, para que nossos jovens (em escolas públicas e particulares) tenham mais informações sobre questões relacionadas à justiça política, econômica e social, mas, que também, fortaleçam um senso de responsabilidade individual e social maior.

O jogo também desenvolve a empatia, algo que ultimamente vem se perdendo em nossa sociedade de consumo, cada vez mais individualista e impessoal. Precisamos resgatar isso nas pessoas. Não sabemos se isso vai dar certo, nem se vamos conseguir fazer com que o jogo ganhe esta dimensão. Mas, estamos tentando fazer a nossa parte.

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Sobre o professor Roosevelt Arraes
Graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba (2002), especialista em Ética (2004), mestre (2006) e doutorando (2014) em Filosofia Jurídica e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Atualmente é professor e pesquisador do Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA e membro-pesquisador do Departamento de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

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