Liderando no ambiente jurídico em tempos incertos

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A incerteza é um sentimento que nos provoca inúmeras reações. Receio do que vem pela frente, dificuldade de se adequar a um novo estilo de vida. São muitas as consequências dessa sensação, que é comum em tempos incertos, como o que vivemos com a pandemia do COVID-19. Em um escritório de advocacia ou departamento jurídico, ela atinge a todos, desde os sócios até o estagiário. E como seguir liderando no ambiente jurídico diante deste contexto? Desde já, adiantamos que a liderança é possível – e necessária.

VUCA: o mundo atual

VUCA é uma sigla utilizada em ambiente militar nos Estados Unidos no final dos anos 90. Ela descreve a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) de um ambiente. Ela passou a ser utilizada no ambiente corporativo por volta de 2010, mas com um objetivo semelhante: lidar com a agressividade e os desafios deste ambiente. O mundo atual traz consigo exatamente tais características. Veja a seguir um pouco mais sobre cada uma delas:

  • Volatilidade: velocidade das mudanças e seus impactos. Com a tecnologia, isso se acentuou bastante, pois tudo muda muito rapidamente, trazendo muitos desafios para o ambiente empresarial (inclusive no mundo jurídico).
  • Incerteza: é difícil realizar previsões em um mundo tão volátil, mesmo se baseando em acontecimentos passados. Por isso, o momento traz muitas incertezas, dúvidas e indecisões.
  • Complexidade: cada situação ou problema traz inúmeras variáveis, o que provoca dificuldade de compreensão do resultado dessas interações. É difícil encontrar respostas específicas, pois há muitas possibilidades de respostas para a mesma questão. Em um negócio, por exemplo, há fatores externos e internos, que, em muitos casos, estão fora do controle do gestor.
  • Ambiguidade: as diversas possibilidades de caminhos para uma mesma questão traz ambiguidade, ainda que algumas não se apresentem como as melhores soluções. Com tantas incertezas e complexidade, é difícil entender a natureza do problema. Não existe mais “isso ou aquilo”, podendo ser “isso e aquilo”.

Com tantos desafios, é complicado continuar liderando no ambiente jurídico. Mas é possível. Os gestores devem lidar com o mundo VUCA fazendo uma gestão baseada em riscos. Abrir-se a novas possibilidades e transitar em novos caminhos é uma saída. E a liderança é fundamental para que a equipe se adapte às incertezas.

Liderando no ambiente jurídico: práticas importantes

Um dos aspectos mais importantes para continuar liderando no ambiente jurídico em tempos incertos é a relação harmoniosa com a equipe. Todos têm medo do desconhecido ou resistência a ele. Para lidar com isso, é preciso compreender os profissionais antes de tudo.

Entender as gerações

Quantas gerações existem em seu escritório de advocacia? Certamente, várias. E todas devem ser lideradas, o que demanda conhecer não só as pessoas, mas a própria geração. Cada uma tem um perfil diferente. Ou seja, há condutas que são esperadas pelos baby boomers, mas são refutadas pelos millennials.

Seguir liderando no ambiente jurídico depende da compreensão dessas diversas pessoas sob seu comando. Assim, você saberá o que move cada liderado. Conheça um pouco mais sobre cada geração:

  • Baby boomers (nascidos entre 1945 e 1960): geração de coisas simples, que pensa em realizar bem o essencial. Marcada por uma forte relação com os empregadores, dedicam-se anos na carreira de determinado local.
  • Geração X (nascidos entre 1961 e 1980): geração que entende o trabalho como forma de ser recompensado. Tem o olhar voltado para o futuro, e vê no happy hour a oportunidade de fazer networking. Busca prestígio pela certificação profissional para alimentar o currículo e costuma ser workaholic (e ainda vê isso como algo positivo). É a primeira geração que teve mais contato com novas tecnologias.
  • Geração Y ou millennials (nascidos entre 1981 e 2000): geração que pensa no caminho, não no fim do trajeto. Relaciona o prazer à realização profissional, procuram propósito no que fazem e valorizam o dia a dia. Gosta de meios informais de educação, sem hierarquias, e tem constante sede de aprendizado. É uma geração que mistura vida pessoal e profissional, preferem o home office e tem relação íntima com a tecnologia.
  • Geração Z (nascidos a partir de 2000): geração dos nativos digitais, que inclusive têm consciência dos malefícios do excesso de uso da tecnologia. Vive em uma época totalmente conectada, é pragmática, adaptável (gostam de acumular funções no trabalho) e aprende rapidamente. Procura estabilidade financeira e o trabalho dos sonhos.

As gerações reúnem características de indivíduos que foram influenciados por um mesmo contexto histórico. Isso refletiu diretamente nos seus comportamentos, costumes e valores, que podem ser observados nos escritórios e departamentos.

Passar confiança

A compreensão das gerações e consequentemente dos liderados é o que permite o gestor passar confiança à equipe. É uma boa prática para seguir liderando no ambiente jurídico em tempos incertos. É, também, o que leva os profissionais a atingirem suas metas.

A confiança é o sentimento necessário para que um liderado peça ajuda quando necessário, tenha conflitos construtivos que provocam seu crescimento. Isso faz com que as equipes sejam mais colaborativas e se sintam seguras no ambiente de trabalho. Como consequência, a performance do time é elevada.

Existem várias formas de construir a relação de confiança com os liderados. Uma delas é entender as gerações, como apontamos. Outra maneira é expor os próprios erros e desafios pessoais. Afinal, o líder não é infalível.

Adotar a comunicação não-violenta

A comunicação não-violenta (CNV) foi criada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg nos anos 1960. É um tipo de comunicação que aumenta as chances de conexão entre as pessoas. Em tempos incertos, é fundamental para seguir liderando no ambiente jurídico.

O líder que adota a comunicação não-violenta adota práticas que manifestam os componentes fundamentais dessa comunicação. São 4 componentes:

  • Descobrir qual necessidade não foi satisfeita na situação e compartilhar a questão com o interlocutor, mas não em forma de cobrança;
  • Reconhecer os sentimentos que foram despertados diante de uma situação e comunicá-los ao interlocutor;
  • Dirigir-se ao outro diretamente com um pedido;
  • Observar com neutralidade os fatos.

Dentre desses componentes, o líder pode, por exemplo, dar feedbacks inteligentes, que fazem observações específicas sobre a conduta de alguém naquela situação. Outra forma de CNV é procurar o ponto de união, não o de separação.

Seguir liderando no ambiente jurídico é uma dificuldade em tempos incertos. As equipes ficam receosas com o desconhecimento sobre o futuro. Mas é possível construir um ambiente de trabalho saudável, com boas e confiáveis relações.